Psicologia, sanções e autoritarismo: por que me recuso a escolher lados fáceis

Nos últimos dias, li a nota de repúdio publicada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), órgão responsável pela regulamentação e orientação do exercício da Psicologia no Brasil, a respeito das sanções impostas pelos Estados Unidos à Venezuela. A nota enfatiza os impactos geopolíticos e humanitários dessas medidas, destacando seus efeitos sobre a saúde e o sofrimento psíquico das populações mais vulneráveis.

Escrevo este texto a partir de um incômodo ético, profissional e pessoal. Não escrevo para defender governos, blocos geopolíticos ou estratégias de poder. Tampouco escrevo para absolver sanções, autoritarismos ou violências institucionais. Escrevo porque, como psicóloga, me inquieta profundamente quando o sofrimento humano é capturado por narrativas simplificadas e passa a circular como se fosse, por si só, uma posição ética.

Quero deixar algo muito claro desde o início: não discordo da denúncia dos efeitos das sanções. Há ampla literatura mostrando que sanções econômicas amplas tendem a produzir sofrimento coletivo significativo, especialmente em contextos de fragilidade institucional, afetando diretamente o acesso a medicamentos, alimentação e serviços básicos. Do ponto de vista da psicologia social e da saúde coletiva, esse sofrimento é real, concreto e não pode ser relativizado.

Ainda assim, a leitura dessa nota me deixou inquieta. E não porque eu defenda sanções, muito menos porque eu faça qualquer apologia à violência estatal americana — mas porque senti falta de uma recusa explícita a todos os alinhamentos simplificadores.

Não defender sanções não significa defender regimes autoritários

Criticar sanções econômicas não equivale a defender regimes autoritários. Da mesma forma, criticar regimes autoritários não equivale a legitimar intervenções imperialistas ou violências externas. Quando essas distinções não são feitas com clareza, o debate se empobrece e o sofrimento humano é novamente instrumentalizado — agora em nome de uma suposta coerência moral.

Regimes autoritários produzem sofrimento psíquico contínuo e profundo: medo, silenciamento, perseguição política, destruição dos laços de confiança social. Hannah Arendt já alertava que a violência política não se sustenta apenas pela força explícita, mas pela normalização do medo e da impotência como condições existenciais. Michel Foucault mostrou como o poder atua de forma capilar, atravessando corpos, discursos e subjetividades, produzindo modos específicos de sofrimento e submissão.

Ignorar essa dimensão interna da violência não é neutralidade. É uma forma de apagamento ético.

O dilema real não é geopolítico — é humano

O que está em jogo não é escolher entre o “lado certo” e o “lado errado” da história. O que está em jogo é reconhecer que populações inteiras podem ficar aprisionadas entre forças de poder externas e internas, sem que nenhuma delas represente, de fato, um campo de proteção.

Sanções econômicas amplas tendem a atingir desproporcionalmente populações vulneráveis. Ao mesmo tempo, a ausência de qualquer forma de pressão externa pode funcionar como legitimação tácita de regimes que reprimem, censuram e não dialogam com sua própria população. A psicologia crítica descreve esse cenário como uma condição de dupla vulnerabilização: sujeitos expostos simultaneamente a estruturas de dominação internas e externas, sem espaço real de agência ou proteção.

Onde eu acredito que a psicologia deveria estar

Considero importante explicitar que esta reflexão não representa, nem pretende representar, uma defesa de governos, Estados ou projetos geopolíticos específicos. Trata-se de uma análise ética e psicológica, situada no campo do sofrimento humano e da responsabilidade profissional, e não de uma tomada de posição partidária ou ideológica.

A psicologia perde densidade quando troca análise por alinhamento ideológico — seja ele qual for. Seu compromisso não é com governos, mas com sujeitos; não é com narrativas de poder, mas com a dignidade humana, a autonomia e a liberdade.

Isso exige sustentar posições desconfortáveis: denunciar sanções que produzem sofrimento indiscriminado, denunciar regimes autoritários como produtores de violência psíquica e social e recusar narrativas que transformam populações em peças de um tabuleiro geopolítico.

Polarização não é posição ética

Estudos em psicologia social mostram que discursos binários tendem a intensificar a polarização, reduzir a capacidade de escuta e empobrecer a elaboração coletiva. Nesse cenário, qualquer tentativa de complexificação é rapidamente capturada por acusações morais: ou se é conivente com o imperialismo, ou se é conivente com o autoritarismo.

Essa lógica não protege populações vulneráveis. Ela apenas reorganiza o sofrimento em novas narrativas de poder.

A posição que eu consigo sustentar

A única posição que consigo sustentar, ética e profissionalmente, é aquela que recusa atalhos morais. Não defendo sanções. Não defendo autoritarismos. Não defendo violências estatais, sejam elas internas ou externas.

Defendo a necessidade de análises complexas, responsáveis e humanas. Em contextos de sofrimento coletivo, aprendi que o silêncio também oprime. Mas aprendi também que simplificar o mundo em lados absolutos é outra forma de violência simbólica.

Sustentar a complexidade talvez seja uma das tarefas mais difíceis da psicologia hoje — e, justamente por isso, uma das mais necessárias.


Este texto trata de:
Psicologia e ética profissional · Sofrimento psíquico em contextos geopolíticos · Sanções econômicas e impactos humanos · Autoritarismo, poder e subjetividade · Polarização e responsabilidade ética · Limites do alinhamento ideológico na Psicologia

Referências bibliográficas

Arendt, H. (1951). The Origins of Totalitarianism. New York: Harcourt, Brace & Company.

Foucault, M. (1975). Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes.

Garfield, R., & Santana, A. (2010). The impact of economic sanctions on health and human rights. Journal of Public Health Policy, 31(4), 418–432.

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Montero, M. (2009). Methods for liberation: Critical consciousness in action. In M. Montero (Ed.), Psychology of Liberation. New York: Springer.

Sunstein, C. R. (2009). Going to Extremes: How Like Minds Unite and Divide. Oxford: Oxford University Press.

Iyengar, S., & Westwood, S. J. (2015). Fear and loathing across party lines. American Journal of Political Science, 59(3), 690–707.

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Comentários

  1. Amiga ainda não li tudo vc sabe tudo que saí da pessoa é sentido meu interesse de partilhar.viana

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