Espelhos do Eu Narcisismo, imagem e existência no diálogo entre Jung e Heidegger
🪞 Narcisismo, imagem, trauma e existência
Um diálogo entre Jung e Heidegger — e o que isso muda na clínica
Este texto propõe um diálogo entre a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e a fenomenologia existencial de Martin Heidegger, compreendendo o narcisismo antes do rótulo: como modo de existir — especialmente relevante no trabalho clínico com traumas, vítimas e histórias de violação do ser.
O espelho como problema (antes do diagnóstico)
Antes de qualquer classificação psicopatológica, o narcisismo se apresenta como um fenômeno relacional: um Eu que depende do reflexo para sustentar sua própria presença.
O espelho, aqui, não é vaidade. É dependência ontológica. Quando o Eu só se reconhece na imagem devolvida, o Outro deixa de ser alteridade e passa a ser função: olhar, confirmar, sustentar, validar.
Esse deslocamento é fundamental para a clínica, sobretudo quando lidamos com sujeitos cuja história foi marcada por abandono, violência, abuso ou silenciamento.
Jung: trauma, inflacionamento do Eu e perda da interioridade
Na Psicologia Analítica, muitos quadros de inflacionamento do Eu — frequentemente lidos como narcisismo — não nascem da força, mas de feridas precoces.
- o Eu se construir de forma defensiva;
- a persona virar armadura;
- a sombra carregar conteúdos dissociados de dor, medo e desamparo;
- a imagem funcionar como tentativa de sobrevivência psíquica.
Na clínica junguiana, o trabalho com traumas não busca “quebrar” o Eu, mas oferecer um espaço simbólico suficientemente seguro para que o sujeito possa reintegrar partes dissociadas, nomear o sofrimento e retomar o processo de individuação.
Heidegger e a Daseinsanalyse: queda existencial, retração do mundo e perda de possibilidades
Na Daseinsanalyse, inspirada em Heidegger, o sofrimento não é reduzido a um conflito intrapsíquico. Ele é compreendido como sinal de uma mudança no modo de ser-no-mundo.
- retração do mundo (o mundo “encolhe”);
- perda de confiança na co-presença (Mitsein);
- transformação do Outro em ameaça ou instrumento;
- empobrecimento das possibilidades existenciais.
Quando o Eu se fixa na aparência e no controle da imagem, estamos diante de uma forma de queda: uma existência que já não consegue habitar o próprio acontecer. A clínica daseinsanalítica não busca “corrigir” o sujeito, mas reabrir o campo das possibilidades — recolocando-o em relação com o tempo, o corpo, o Outro e o sentido.
O ponto de encontro clínico: do espelho ao encontro
Jung e Heidegger convergem aqui de um modo decisivo: o trauma tende a interromper o encontro — e o espelho (imagem/validação) vira substituto do vínculo. A clínica, seja junguiana ou daseinsanalítica, faz um gesto semelhante: substituir o espelho pelo encontro.
- trabalho simbólico do trauma;
- respeito ao ritmo do inconsciente;
- reintegração da sombra;
- retomada do processo de individuação.
- escuta do sofrimento como modo de ser;
- recusa da patologização da existência;
- reabertura de possibilidades de mundo;
- responsabilidade e presença no existir.
Referências
- HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2012.
- HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Petrópolis: Vozes, 2001.
- BOSS, Medard. Psychoanalysis and Daseinsanalysis. New York: Basic Books, 1963.
- BOSS, Medard. Existential Foundations of Medicine and Psychology. Lanham: Jason Aronson, 1988.
- JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.
- JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2012.
- JUNG, Carl Gustav. A Prática da Psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2011.
- SAMUELS, Andrew; SHORTER, Bani; PLAUT, Fred. Dicionário Crítico de Psicologia Analítica. Rio de Janeiro: Imago, 1988.
- VAN DEURZEN, Emmy. Psychotherapy and the Quest for Happiness. London: Sage, 2009.
- LOPARIC, Zeljko. Heidegger e a Questão da Psicopatologia. São Paulo: Escuta, 2001.
Este texto integra a série Espelhos do Eu e propõe uma leitura clínica e existencial do narcisismo, articulando Psicologia Analítica, fenomenologia e Daseinsanalyse, com atenção especial ao trabalho com traumas e vítimas.

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